Ricardo Westin (Jornal do Senado)
Os
subsolos do Brasil guardam alguns dos recursos naturais mais cobiçados
do século 21: os elementos químicos conhecidos como terras-raras. Embora
o nome não soe familiar, eles são o ingrediente essencial das
maravilhas da alta tecnologia.
As terras-raras
fazem funcionar tablets, telefones celulares, lasers, turbinas de
energia eólica, catalisadores para refino de petróleo, aparelhos de
ressonância magnética, mísseis teleguiados, carros híbridos (movidos a
gasolina e eletricidade) e outras invenções sem as quais não se imagina a
vida moderna.
O governo corre
para mudar esse quadro. Dois ministérios, o de Minas e Energia e o da
Ciência e Tecnologia, tentam convencer as mineradoras a explorar as
jazidas já localizadas e incentivar os institutos de pesquisa a
prospectar minas ainda desconhecidas.
O Senado também se
envolveu nesse processo. Acaba de criar, dentro da Comissão de Ciência e
Tecnologia (CCT), uma subcomissão dedicada às terras-raras. A missão
dos senadores é propor e aprovar uma lei que garanta a chamada segurança
jurídica aos investidores que decidirem apostar na pesquisa, na
extração e na industrialização das terras-raras, estabelecendo quais são
seus direitos e deveres.
O presidente da
subcomissão é Anibal Diniz (PT-AC). O vice-presidente é Aloysio Nunes
Ferreira (PSDB-SP). A relatoria cabe a Luiz Henrique (PMDB-SC).
O Brasil não está
sozinho no atraso. O mundo inteiro depende da China, que reina absoluta
no mercado das terras-raras. De todo o volume comercializado
internacionalmente, algo em torno de 90% sai das minas chinesas.
Nem sempre foi
assim. Países como os Estados Unidos, a Austrália, a África do Sul e o
próprio Brasil extraíam quantidades significativas de terras-raras até
algumas décadas atrás.
Submarino nuclear
No Brasil, a
história remonta ao final do século 19, quando foram descobertos
depósitos de areias ricas em terras-raras entre o norte do Rio de
Janeiro e o sul da Bahia. Primeiro, saíam do país como lastro de navio
(material pesado acomodado no porão das embarcações para dar-lhes
estabilidade). Depois, passaram a ser vendidas para a Europa como
matéria-prima das mantas incandescentes dos lampiões a gás. Eram as
terras-raras que conferiam às mantas a valiosa capacidade de não se
queimarem em contato com o fogo.
Nos anos 50, as
terras-raras extraídas daquelas mesmas jazidas foram exportadas para os
EUA e empregadas no USS Nautilus, o primeiro submarino de propulsão
nuclear da história. Em barras, as terras-raras brasileiras controlavam a
absorção de nêutrons do reator atômico do Nautilus.
O nome terra-rara é
enganoso. Esses elementos não têm terra na composição nem são raros.
Quando foram identificados, no século 18, os cientistas chamavam os
óxidos de terras. E os consideravam raros porque eram (e ainda são)
encontrados em baixas concentrações, agregados a minérios e minerais.
Hoje se sabe que, ainda que “diluídos”, estão em vários pontos da crosta
terrestre. Alguns são mais abundantes do que o cobre e o ouro.
No total, 17
elementos químicos fazem parte da família das terras-raras, como o
európio, o túlio, o lantânio e o ítrio. Eles são vizinhos na tabela
periódica. Assemelham-se em razão de suas propriedades químicas,
magnéticas e de fluorescência, que os tornam insumos insubstituíveis na
tecnologia de ponta. São as terras-raras que possibilitam a existência
dos ímãs mais potentes que há e permitem a criação de aparelhos
eletrônicos cada vez menores. Em um celular, elas se contam em gramas.
Em uma turbina eólica, em centenas de quilos.
A China conseguiu
antever que os usos das terras-raras se multiplicariam e entrou com
força total nesse filão. Em meados dos anos 80, adotou uma estratégia
agressiva de negócio, incluindo polpudos subsídios estatais à pesquisa
tecnológica e à extração.
Como os chineses
conseguem vender terras-raras a preços irrisórios, é muito mais
conveniente e barato para qualquer país importar as terras-raras da Ásia
do que extraí-las em seu próprio território. É um clássico exemplo de
dumping. Fora da China, como consequência, praticamente mina nenhuma
sobreviveu.
Preços em alta
Em 2010, o governo
chinês deu um susto no mundo. Sem aviso, restringiu as exportações de
terras-raras, impondo cotas e elevando impostos. O país argumentou que
queria proteger o meio ambiente e poupar um recurso natural finito. Na
realidade, a ideia era favorecer sua própria indústria de tecnologia. É
mais lucrativo vender aparelhos de alta tecnologia (que contêm
terras-raras processadas) do que exportar a matéria-prima bruta.
Com a procura em
alta e a oferta em baixa, o preço disparou. Entre 2010 e 2011, o quilo
do térbio pulou de US$ 605 para US$ 2.973. O do európio passou de US$
625 para US$ 3.800.
Foi então que o
mundo acordou para o perigo de ser refém dos humores do monopólio
chinês. A situação fica ainda mais preocupante quando se leva em conta a
certeza de que o consumo de terras-raras sofrerá um aumento exponencial
nos próximos anos — o comércio de laptops, smartphones e tablets não
para de crescer, os carros híbridos estão prestes a ganhar o mundo e os
investimentos em energia eólica tendem a se intensificar, como fonte de
energia limpa.
Com a crise
iniciada em 2010, diversos países se mobilizaram para ressuscitar a
exploração local de terras-raras. Entre outras medidas, ofereceram
incentivos financeiros às mineradoras e relaxaram as exigências para a
concessão das licenças ambientais. Os americanos e os australianos foram
os mais ágeis.
Os EUA reativaram
uma gigantesca mina na Califórnia, depois de uma década abandonada. A
produção americana, nula em 2011, chegou a 7 mil toneladas em 2012. Na
Austrália, entre um ano e outro, a extração pulou de 2.200 para 4 mil
toneladas. Como comparação, a China chegou a 100 mil toneladas no ano
passado.
Em outra frente, o
governo do Japão deu estímulos para que sua indústria automobilística
criasse formas de reciclar terras-raras.
A preocupação
desses países vai muito além do aspecto econômico. Explica Ronaldo
Santos, coordenador de Processos Metalúrgicos e Ambientais do Centro de
Tecnologia Mineral (Cetem):
— As terras-raras
estão presentes em todos os aparatos eletrônicos de vigilância,
segurança e defesa. Os países estão preocupados com sua soberania.
Ficarão vulneráveis se houver desabastecimento de terras-raras.
O Brasil também
sentiu os efeitos da política restritiva da China. As dificuldades para
obter a matéria-prima chegaram a ameaçar a fabricação nacional de
catalisadores para refino de petróleo — o petróleo é um dos grandes
motores da economia brasileira. Foi então que o governo se mobilizou.
Ao elaborar o
Plano Nacional de Mineração 2030, o Ministério de Minas e Energia
incluiu as terras-raras entre as prioridades do país para as próximas
duas décadas. O Serviço Geológico do Brasil, que é ligado ao ministério,
recebeu a ordem de localizar novas jazidas.
Em outra frente, o
Ministério da Ciência e Tecnologia busca estimular a pesquisa e o
desenvolvimento tecnológico em terras-raras. Promete destinar nos
próximos anos R$ 11 milhões a institutos de pesquisa públicos e
privados. Um dos desafios é criar tecnologias que permitam separar as
terras-raras de minérios e minerais. As técnicas que se conhecem hoje
são complexas, caras e extremamente poluentes.
Como parte da
estratégia do governo, discute-se a possibilidade de o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) criar linhas especiais de
financiamento para as empresas que se dedicarem à prospecção, à extração
e ao processamento das terras-raras.
Recomeçar do zero
Em meados do
século passado, quando as terras-raras ainda não tinham tantas
aplicações, o Brasil era líder mundial no setor. No início dos anos 60,
as minas foram estatizadas. A Orquima, a empresa que forneceu as
terras-raras que alimentaram o submarino Nautilus, também passou para as
mãos do governo. Assim começava o lento desmonte da cadeia produtiva.
— O Brasil perdeu
todo o investimento que havia feito em tecnologia e recursos humanos.
Recomeçar do zero agora não será fácil. Temos um grande desafio — diz o
químico da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Antonio Serra, que
foi estagiário na Orquima antes da estatização.
Hoje, a extração
de terras-raras no país é feita de forma experimental. A Companhia
Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) retira nióbio (metal que
eleva a qualidade do aço) de minas localizadas em Araxá (MG). No ano
passado, passou a fazer a separação das quatro terras-raras (cério,
lantânio, neodímio e praseodímio) que estão misturadas ao nióbio dessas
minas.
Dado o alto
potencial geológico de Araxá, a multinacional MbAC Fertilizantes
anunciou que construirá na cidade uma fábrica de processamento de
terras-raras. A empresa que o governo mais deseja ver nesse mercado é a
Vale, a maior mineradora do país.
As mineradoras se
dizem interessadas, mas cobram uma atuação mais decisiva do governo.
Para o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa o
setor, o que há são projetos esparsos, sem comunicação entre si, de
institutos de pesquisa e empresas. O Ibram defende que o Cetem, que é
ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, assuma a tarefa de
coordenar as iniciativas e apontar-lhes um rumo.
— O Cetem atuaria como os grupos
executivos criados por Juscelino Kubitschek para alavancar a economia do
país na virada dos anos 50 para os 60. O mais famoso foi o grupo
executivo da indústria automobilística, que articulou o setor e obteve
resultados fantásticos — explica Marcelo Ribeiro Tunes, um dos diretores
do Ibram.
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Agência Senado
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